São 21:57h de uma segunda-feira, quando escrevo as primeiras palavras desta narrativa que não sei onde vai dar. Enquanto ouço Cássia Eller, o computador sobre as pernas cruzadas. As pernas vestindo meias-calças. Desfiadas, nada passa imune pelos dias. As parisienses as usam assim, sem maiores problemas, o que me faz pensar que é um ranço bastante provinciano a preocupação excessiva com a impecabilidade da aparência. Estou sentada no sofá que M. trouxe da casa dele quando decidimos viver juntos. Um sofá era algo que eu sonhava ter, mas representava um investimento muito alto para quem não sabia onde moraria no próximo mês. Ao mesmo tempo, o sofá de M., agora já desgastado, me alerta para a mesma imprevisão. Decidimos não desembolsar os R$700,00 que nos orçaram. Estamos aguardando as prometidas mudanças do destino. Bons ventos parecem conduzir M. a um posto mais rentável de trabalho. O caminho, no entanto, é árduo. Vivemos cada passo juntos. Estou emocionada porque ouvir Cássia Eller agora começou com a ideia de mostrar-lhe o videoclipe de No Recreio, um dos recortes mais bonitos da artista. Ironicamente, reúne naturalidade e irreverência; desprendimento e enlace. Filmagens caseiras, Cássia amamentando, orgânica, viva, mãe. Ainda me soa inesperado vê-la assim. Grandes artistas são como médiuns, convergem dimensões do existir, tecem elos entre os tempos, entre as pessoas, entre o íntimo e o transcendental. Alguns deles me dão medo, porque têm o imenso poder de me conduzir. Ainda sei escrever? Sou capaz de conduzir alguém, além de mim, a algum lugar? Cássia me remete liberdade, despojamento; adolescência e maturidade entrelaçadas. Ainda sei pontuar? Dar ritmo ao que quer que seja? Onde está aquela que girava a saia cantando só, na sala? Preciso de alegria, preciso que algo além do desespero me arrebate. Acho que descobri a lição de Cássia: ser autêntica.

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